Quando um gesto rasga o mundo
(Rosa Parks detida)
Conheci-o a servir, modesto e com um
sorriso na boca, refeições na cantina da António Serpa, a primeira
sede do PCP [Partido Comunista Português] depois do 25 de Abril. Ia
lá depois da escola, enquanto esperava que a minha mãe acabasse
mais uma reunião. Chateava as pessoas que podia nas horas
intermináveis que lá passava.
A revolução sucedia–se nas ruas ao
ritmo inebriante das paixões, mas parece que o seu custo era pago em
reuniões permanentes. Anos mais tarde, já militante, lembro-me de
cair literalmente na mesa batendo com a cabeça no tampo, numa
reunião que já passava das quatro da manhã. Muitos anos mais
tarde, li uma passagem do "Assassinato do Comité Central",
de Manuel Vázquez Montalbán, em que o detetive Pepe Carvalho
explicava que, “antigamente, os comunistas tinham nomes heróicos
como homem de ferro ou outros, agora só precisavam de um cu de ferro
para aturar tantas reuniões”. A passagem fazia–me rir e
sublinhava a ideia de que havia muito coisa chata e inútil e que as
coisas custavam demasiadas horas.
Quando desse pensamento derivava para a
necessidade de sublinhar um princípio do prazer no que se fazia,
dada a brevidade das nossas vidas, muitas vezes regressava àquele
homem que, para além do seu trabalho, fazia e servia refeições aos
seus camaradas. José Magro, a quem eu chateava várias horas quando
era criança, tinha estado preso com ele e contou-me a sua história.
Aquele homem tinha-se feito passar por “rachado” — alguém que
trai os seus para colaborar com a PIDE [Polícia política
salazarista] e os guardas prisionais –, passou a ser desprezado e a
receber o ódio dos próximos, para ganhar a confiança da PIDE e
ajudar a preparar a fuga dos seus camaradas.
Durante meses, apenas José Magro sabia
da missão de António Tereso. Sim, é o nome da pessoa que morreu há
pouco tempo sem pompa e circunstância, como morrem os homens e as
mulheres. Anos mais tarde, o dirigente do PCP Domingos Abrantes
confirmou-me a história. Tereso fora convencido a “rachar” para
descobrir os pontos fracos da cadeia. “Quando o Zé Magro foi
colocado numa outra sala, teve uma ideia genial: convencer o Tereso a
‘rachar’. O Tereso nem queria acreditar. Um rachado era um tipo
desprezível, que colaborava com os carcereiros.
Ninguém falava ao tipo, nem à própria
família. Mas o Zé Magro convenceu-o da justeza da tarefa, uma
tarefa terrível, porque se aquilo desse para o torto e acontecesse
alguma coisa ao Magro, ninguém saberia que ele estava combinado com
o partido. Arranjou um conflito interno, bateu com a porta: ‘Estou
farto destes gajos, comunismo já basta’. Depois de desconfiarem,
lá o aceitaram, e o Tereso passou para os rachados”, contou-me
Abrantes.
Ganhou a confiança da direção da
prisão de Caxias e, como era bom mecânico, puseram-no a arranjar o
carro blindado de Salazar, que estava a reparar na prisão. A 4 de
dezembro de 1961, oito militantes comunistas fugiram no carro
blindado de Salazar. Ao volante estava António Tereso. Na maior
parte das vezes, a fidelidade à ideia não tem um final feliz. Mas
sem essa capacidade de ser fiel e constante não é possível
acontecer nada. Os nossos atos podem, em determinadas circunstâncias,
rasgar algo que parecia uma opressão imutável, mas quem o faz paga
um preço sem saber do resultado. Apenas tem essa capacidade de não
aceitar o intolerável, custe o que custar.
Foi também assim, naquele dia como
outro qualquer, 1 de Dezembro de 1955. Uma costureira de 42 anos
sentou-se no autocarro nos lugares disponíveis para “gente de
cor”. Na cidade de Montgomery, no estado do Alabama, a lei dizia
explicitamente que quando os brancos não tivessem lugares sentados
podiam obrigar os negros a levantar-se, e se o veículo estivesse
muito cheio os negros podiam ser despejados para a rua.
Nesse dia vários brancos entraram no
autocarro e muitos negros levantaram—se dos seus lugares. Mas não
todos. Rosa Parks recusou fazê-lo. “Estou cansada de ser tratada
como uma pessoa de segunda classe”, disse ao condutor.
O funcionário chamou a polícia. A
mulher foi presa por não aceitar ser tratada como escrava.
Nesse mesmo dia, os habitantes negros
da cidade de Montgomery deixaram de andar de autocarro. São os
pobres que viajam nos transportes públicos. São os pobres que
trabalham por salários de miséria. São eles que criam a riqueza de
cidades como Montgomery. E aí, no estado do Alabama, os pobres são
quase todos negros. O boicote durou 381 dias. 75% dos passageiros dos
autocarros, os negros, não cederam. No fim do seu protesto, o
Supremo Tribunal dos EUA considerou ilegais as leis racistas do
estado do Alabama que discriminavam os negros nos espaços públicos.
No dia 21 de Dezembro de 1956, o Reverendo Martin Luther King e
outros activistas dos direitos cívicos foram os primeiros negros a
viajar, como cidadãos iguais de direito, num autocarro da cidade
de Montgomery.
Um acto que mudou a história. Rosa
recusou-se a levantar-se do banco do autocarro para dar lugar aos
brancos. Foi presa, mas a sua recusa atiçou a revolta pelos direitos
iguais. As coisas nunca mais foram as mesmas. Um só gesto fez toda a
diferença.
Vivemos hoje em Portugal em condições
cada vez piores para a maioria da população.
Ao contrário dos contos de fadas ou dos filmes em que se come
pipocas, nada obriga a que depois de uma tragédia haja um final
feliz. Mas na nossa liberdade está inscrita a possibilidade de mudar
as coisas. Por vezes basta um gesto corajoso.
Porque temos de viver num país em que em tempos de vacas gordas os
banqueiros distribuem dividendos à conta dos nossos depósitos e em
tempo de vacas magras esses mesmos banqueiros distribuem dividendos à
conta dos nossos impostos?
Porque somos obrigados a aturar os governos do grande centrão que
foram cúmplices das negociatas do BPN e das parcerias
público-privadas?
Porque estamos condenados a aceitar um país que vai ao fundo
enquanto os do costume enriquecem?
Numa das tragédias clássicas do teatro grego, “Antígona”
opõe-se às leis da cidade que a impedem de enterrar o irmão. Para
ela as leis da cidade não estão acima do dever. O seu sofrimento
vai derrubar a tirania. Há milhares de anos, como agora, a liberdade
vale mais que os repressores de turno. Basta um gesto para o
perceber.
Precisamos de gente fiel à luta contra aquilo que está mal,
necessitamos da singularidade de um acto, como o de Rosa Parks. Um
acto de contágio que sirva para inocular a recusa de qualquer
submissão.
Há uns anos entrevistei em Lisboa o
pensador Michael Löwy. Autor de uma importante e original obra, Löwy
tem a característica admirável de conseguir escrever claro coisas
complicadas, fazendo parecer cristalino aquilo que nos parece
enevoado. Essa clareza tem dois aspectos que penso serem
intrinsecamente políticos: a ideia de que é preciso criar sentido
num mundo difícil e a determinação de escrever para que as pessoas
o entendam, não cultivando um discurso de casta que impeça todas e
todos de participarem no processo do conhecimento. O seu trabalho
sobre o romantismo revolucionário como revolta e a necessidade de
reencantarmos o mundo, e nos reencantarmos, para o conseguir
transformar é especialmente brilhante. Como dizia o surrealista
André Breton, citado por Michael Löwy no seu “A Estrela da Manhã,
Surrealismo e Marxismo”: “É a revolta, e somente a revolta, que
é criadora de luz. E esta luz não pode ser conhecida senão por
três vias: a poesia, a liberdade e o amor.”
As paixões, como as revoluções, são
tentativas de rompermos as leis que nos condenam à mediocridade e à
servidão. No fim estaremos todos mortos, o que conta é termos sido
capazes de um gesto livre.

É isso. Parabéns
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